A entrada da Catedral de Santo Antônio
estava abarrotada de pessoas. Repórteres, curiosos e policiais. Localizada no
coração da cidade de Rail Port, um crime fez com que Logan Springwood chamasse
o detetive Daniel Herrera com urgência. Um policial esperava o rapaz e abriu
caminho para que Dito pudesse entrar na Igreja e andar até os fundos da
arquidiocese.
- Acredita em Deus, detetive? -
perguntou o policial. Daniel fazia o sinal da cruz quando adentrou a enorme
catedral.
- Sim. Desde que me conheço como pessoa
me foi ensinado que a fé é confortante.
- Então prepare sua fé, porque o que
verá aqui, não parece obra do Senhor.
Os dois seguiram entre o corredor,
passaram a secretaria episcopal e saíram nos jardins da arquidiocese. Quando
alcançaram a cúria, seguiram à direita para a garagem. Os policiais esperavam
pelo detetive. Logan olhou para Daniel e o rapaz visualizou a cena do crime
incrédulo. Um homem pregado numa cruz. Ambos, objeto e homem, estavam de cabeça
para baixo. A vítima estavam nua e no peito letras e números. O sangue escorria
pelo chão e o cheiro de carne apodrecida e urina completavam o ambiente
demoníaco.
- Não se preocupe, filho. Não é uma
cruz! - quem se referia ao detetive era o bispo responsável pela cúria.
- O que aconteceu aqui? Já apuraram os
fatos? - questionou Dito para Logan.
- Apuramos. Venha comigo! Falaremos
dentro da cúria!
"A vítima é Liceu Caranovinco, dono
de três docas no bairro sul de Greencliff. As informações que conseguimos é que
Caranovinco era de uma seita anti-cristã, assim como a sua esposa Tamara
Caranovinco. O homem não está pregado em uma cruz, mas em uma caixa em que
estava guardada a Cruz de São Rafael. Ela era feita de bronze e enfeitada com ouro
e pedras de safira, e estava no alto da Catedral. Dois dias atrás, ela fora
removida para ser levada até Bangor e receber restauração. Ou seja, a cruz foi
roubada. Está claro que quem cometeu o crime foi alguém da seita. Estamos atrás
do líder, Arthur Depree. Outro suspeito é Homer Wellington, o responsável pela
empresa que fez a remoção e que faria o transporte do objeto. Ambos não foram
encontrados até agora. O corpo está lá há umas cinco horas. Quem o encontrou
foi o bispo da cúria, Don Evangelino Papolle. Rapidamente ligou para o
departamento de polícia. Como vamos resolver este caso, Dito? Acho que será um
longo tempo até acharmos o culpado!"
O caso deixara Daniel extremamente
desconfortável. Quem colocaria alguém daquela forma dentro de uma catedral?
Dito olhou novamente para o corpo uma última vez. "Ap 20-7".
- Sabe o que significa aquelas letras no
meio do corpo? - perguntou Logan
- É um versículo. "Quando, porém,
se completarem os mil anos, Satanás será solto de sua prisão", algo sutil
e temeroso. Trata-se da libertação de Lúcifer antes do Juízo Final. Isso nos dá
uma pista de que o assassino conhecia a Bíblia. Vamos atrás de Arthur Depree.
Pela primeira vez, Logan e Daniel
estariam trabalhando juntos em um caso. Dito teria muito mais acesso aos benefícios
que a polícia disponibilizava. Era dez horas da noite quando chegaram à mansão
de Depree. O homem era conhecido por aquilo de fazia em todo o país. Uma seita
satânica forte com poucos fiéis aparentes, mas muito ricos. O lugar era
estranho para Dito: preto e vermelho. Parecia que o sangue vertia das paredes e
o cenário parecia de filmes de terror. Depree era alto e bem apessoado.
Realmente, era carismático e bem educado. Convidou para sentar e lhes serviu
copos de chá gelado.
- Então, oficiais. Posso saber o porquê
de estarem aqui esta hora da noite?
Logan mostrou uma foto de Caranovinco e
Depree assentiu com a cabeça, reconhecendo que o conhecia. Depois, o policial
mostrou a foto da vítima nos seus últimos momentos. Arthur Depree não esboçou
nenhum sinal de pânico.
- É uma pena. Liceu era um ótimo
sacerdote, muito fiel.
- Sabe alguma coisa sobre a Cruz de São
Rafael? - questionou Logan.
- Só o que está nos jornais. Seria
levada para restauração em alguns dias.
Daniel não prestou atenção na conversa. Ficou
analisando a casa e os móveis. Tudo era caro, tudo tinha símbolos: o pentagrama
invertido em vidro sobre a lareira, Baphomet no quadro do corredor e o
versículo achado no corpo da vítima, enquadrado, escrito em italiano, numa face
de papel bem velho. O detetive ficou observando. Depree se aproximou.
- Sabia que Baphomet era o deus dos
Templários? Dizem que ele pode revelar os "tesouros da vida". É
crente em alguma coisa, detetive?
- Minha fé diz que esse negócio com
cabeça de bode perde para uma anjo no final, senhor Depree. - Daniel respondeu
com firmeza.
Depree gargalhou de forma encantadora.
Logan e Dito foram embora. Os dois comentaram sobre as escritas do quadro, mas
não provava nada ainda. Precisavam de mais que um pequeno versículo. Arma.
Motivo.
Pelo rádio, Logan foi avisado que uma
unidade estava na casa de Caranovinco e que deviam seguir para lá. A viagem
durou cinco minutos. A residência era grande e também possuía alguns objetos da
seita. "Baphomet de novo!", pensou Daniel. Tamara Caranovinco era uma
morena linda, de olhos negros, cabelos encaracolados e alta. Ela estava com uma
policial na sala conversando e sendo consolada. Logan foi até onde estava a
mulher. Dito resolveu ficar olhando a casa. O detetive se detinha em reconhecer
os símbolos. No seu Iphone, pesquisava para que servia cada um. Rituais,
livros, deuses, demônios. Eram adoradores pagãos, mas também cidadãos. Até que
parou perante um móvel que continha em sua superfície um estojo de veludo com
um martelo e treze espaços vazios.
- Sra. Caranovinco, o que são estes
espaços vazios?
Tamara se aproximou de Daniel. A mulher
exalava um perfume forte e áspero às narinas.
- São os treze pregos do Monte Cenis.
- Item de colecionador?
- São símbolo da crucificação de
Cartago.
A mulher seria capaz de matar o próprio
marido? Não fazia sentido. O tamanho não serviria para muito e não eram do
tamanho que se enfiaria nos punhos de um homem. Logan não conseguiu tirar nada.
Saíram e foram para a delegacia.
A madrugada passava com as constatações
dos dois detetives. Era um crime estranho. Ninguém batia com as provas. Os
pregos não eram do tamanho dos espaços vazios do estojo, o martelo estava
desaparecido, assim como a cruz e só tinham o quadro do versículo como uma
pista longínqua. Era hora de procurar Homer Wellington. A polícia toda estava
atrás do homem desde o início da investigação. Ele era o possível suspeito com
algum rabo preso. No início da manhã, Logan chega com duas notícias.
- Uma boa e uma ruim, qual vocês quer
primeiro?
- A boa!
Logan trouxera a foto do corpo de Homer
Wellington em um pavilhão no bairro de Bridge I, degolado em meio aos ratos. O
carro do homem havia sido encontrado nas docas de Greencliff. A notícia ruim
era que o bispo Evangelino Papolle era ultra-conservador, ou seja, se fosse
possível puniria com a morte os anti-cristãos. Ambos seguiram a boa notícia.
Foram para o píer 27 do bairro de Ocean Docks na ilha de Greencliff.
A polícia fechou o local no início da
manhã. Logan e Dito abriram os depósitos. O local só guardava duas coisas: um
saco de pregos de grande comprimento e um livro preto chamado "Os Rituais
Antigos" de Arthur Depree. Tudo ainda não fazia sentido. Era hora de
analisar o que tinham e poder dormir um pouco. Logan fora para casa e Daniel
também. O detetive levou o livro consigo para seu pequeno apartamento e apagou
por seis horas. Ao longo do dia, acordou, fez um café e ficou analisando o
livro. A obra de Depree trazia inúmeros rituais pagãos que explicava como
ganhar poder, admiração e salvação. "Que deplorável!", pensava Daniel
a cada linha que lia. Então, Logan ligou.
- Os rapazes encontraram uma pista.
Liceu Caranovinco estava com uma doença terminal! A perspectiva para o seu
tumor cerebral era de mais três meses. Isso ajuda um pouco?
- Pode vir a calhar com a obra linda que
estou lendo.
SALVAÇÃO! Precisava achar um ritual de
salvação de corpo, alma ou qualquer coisa do gênero. E encontrou.
Daniel e Logan reuniram Arthur Depree e
Tamara Caranovinco, juntamente com o bispo Evangelino Papolle, na delegacia. Dito
pegou o livro de Depree e leu em voz alta.
- "A Salvação da Alma para o Éden -
O sangue do ladrão com a oferta da carne na morada da cruz consagrada invertida
para que o corpo seja levado para o paraíso abençoado. Pelas palavras sagradas
da salvação alheia e da libertação, basta o verso para que a voz do anjo
clemente traga aos portões divinos o sacrifício feito".
Todos se olharam. O bispo não entendeu,
Depree sorriu e Tamara ficou pálida.
"No dia em que a Cruz de São Rafael
foi retirada o alto da Catedral de Santo Antônio, Homer Wellington roubou a
cruz, deixando a caixa em que o objeto estivera nos fundos da cúria. Liceu
tinha lido o tal ritual que dizia: 'oferta da carne na morada da cruz
consagrada invertida'. Ele interpretou como sendo a caixa da cruz dentro do
solo da Catedral. Com pouco tempo de vida e devido a sua crença, decidiu fazer
o ritual do livro de Arthur Depree para que sua alma fosse para o Paraíso,
temendo o Inferno. Pagou Homer para roubar o objeto sagrado e depois o matou,
retirando o seu sangue, então teria o 'Sangue do ladrão'. Colocado na caixa e
pregado, espalhou-se o sangue nos pés da cruz e foi colocado apenas a
localização do versículo bíblico em seu corpo, onde se revela 'basta o verso'.
Mas quem poderia fazer isso? Tamara Caranovinco era a única que concordaria em
salvar o marido do jeito que fosse. Pegou o martelo da sala e comprou pregos
maiores, pois os colecionáveis eram pequenos demais. Aos choros, pregou o marido
na expectativa que estivesse certa. Onde está a Cruz de São Rafael? Nunca saiu
do carro de Wellington que está na doca 27."
Tamara fora algemada e levada. O bispo
ouviu tudo e foi embora. Logan encarou Arthur.
- Como pode mentir para essas pessoas?
- A fé é acreditar em algo que não se
pode ser provado. Assim como o deus cristão, o meu deus espera o mesmo de mim.
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