A Cidade do Crime é fonte das investigações de um novo detetive. Em As Ruas de Rail Port, o detetive Daniel Herrera irá descobrir inúmeros crimes e dar uma resolução para todos. Acompanhe a cada quinzena os contos nas páginas deste Blog.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Caso do Ritual


A entrada da Catedral de Santo Antônio estava abarrotada de pessoas. Repórteres, curiosos e policiais. Localizada no coração da cidade de Rail Port, um crime fez com que Logan Springwood chamasse o detetive Daniel Herrera com urgência. Um policial esperava o rapaz e abriu caminho para que Dito pudesse entrar na Igreja e andar até os fundos da arquidiocese.
- Acredita em Deus, detetive? - perguntou o policial. Daniel fazia o sinal da cruz quando adentrou a enorme catedral.
- Sim. Desde que me conheço como pessoa me foi ensinado que a fé é confortante.
- Então prepare sua fé, porque o que verá aqui, não parece obra do Senhor.
Os dois seguiram entre o corredor, passaram a secretaria episcopal e saíram nos jardins da arquidiocese. Quando alcançaram a cúria, seguiram à direita para a garagem. Os policiais esperavam pelo detetive. Logan olhou para Daniel e o rapaz visualizou a cena do crime incrédulo. Um homem pregado numa cruz. Ambos, objeto e homem, estavam de cabeça para baixo. A vítima estavam nua e no peito letras e números. O sangue escorria pelo chão e o cheiro de carne apodrecida e urina completavam o ambiente demoníaco.
- Não se preocupe, filho. Não é uma cruz! - quem se referia ao detetive era o bispo responsável pela cúria.
- O que aconteceu aqui? Já apuraram os fatos? - questionou Dito para Logan.
- Apuramos. Venha comigo! Falaremos dentro da cúria!
"A vítima é Liceu Caranovinco, dono de três docas no bairro sul de Greencliff. As informações que conseguimos é que Caranovinco era de uma seita anti-cristã, assim como a sua esposa Tamara Caranovinco. O homem não está pregado em uma cruz, mas em uma caixa em que estava guardada a Cruz de São Rafael. Ela era feita de bronze e enfeitada com ouro e pedras de safira, e estava no alto da Catedral. Dois dias atrás, ela fora removida para ser levada até Bangor e receber restauração. Ou seja, a cruz foi roubada. Está claro que quem cometeu o crime foi alguém da seita. Estamos atrás do líder, Arthur Depree. Outro suspeito é Homer Wellington, o responsável pela empresa que fez a remoção e que faria o transporte do objeto. Ambos não foram encontrados até agora. O corpo está lá há umas cinco horas. Quem o encontrou foi o bispo da cúria, Don Evangelino Papolle. Rapidamente ligou para o departamento de polícia. Como vamos resolver este caso, Dito? Acho que será um longo tempo até acharmos o culpado!"
O caso deixara Daniel extremamente desconfortável. Quem colocaria alguém daquela forma dentro de uma catedral? Dito olhou novamente para o corpo uma última vez. "Ap 20-7".
- Sabe o que significa aquelas letras no meio do corpo? - perguntou Logan
- É um versículo. "Quando, porém, se completarem os mil anos, Satanás será solto de sua prisão", algo sutil e temeroso. Trata-se da libertação de Lúcifer antes do Juízo Final. Isso nos dá uma pista de que o assassino conhecia a Bíblia. Vamos atrás de Arthur Depree.
Pela primeira vez, Logan e Daniel estariam trabalhando juntos em um caso. Dito teria muito mais acesso aos benefícios que a polícia disponibilizava. Era dez horas da noite quando chegaram à mansão de Depree. O homem era conhecido por aquilo de fazia em todo o país. Uma seita satânica forte com poucos fiéis aparentes, mas muito ricos. O lugar era estranho para Dito: preto e vermelho. Parecia que o sangue vertia das paredes e o cenário parecia de filmes de terror. Depree era alto e bem apessoado. Realmente, era carismático e bem educado. Convidou para sentar e lhes serviu copos de chá gelado.
- Então, oficiais. Posso saber o porquê de estarem aqui esta hora da noite?
Logan mostrou uma foto de Caranovinco e Depree assentiu com a cabeça, reconhecendo que o conhecia. Depois, o policial mostrou a foto da vítima nos seus últimos momentos. Arthur Depree não esboçou nenhum sinal de pânico.
- É uma pena. Liceu era um ótimo sacerdote, muito fiel.
- Sabe alguma coisa sobre a Cruz de São Rafael? - questionou Logan.
- Só o que está nos jornais. Seria levada para restauração em alguns dias.
Daniel não prestou atenção na conversa. Ficou analisando a casa e os móveis. Tudo era caro, tudo tinha símbolos: o pentagrama invertido em vidro sobre a lareira, Baphomet no quadro do corredor e o versículo achado no corpo da vítima, enquadrado, escrito em italiano, numa face de papel bem velho. O detetive ficou observando. Depree se aproximou.
- Sabia que Baphomet era o deus dos Templários? Dizem que ele pode revelar os "tesouros da vida". É crente em alguma coisa, detetive?
- Minha fé diz que esse negócio com cabeça de bode perde para uma anjo no final, senhor Depree. - Daniel respondeu com firmeza.
Depree gargalhou de forma encantadora. Logan e Dito foram embora. Os dois comentaram sobre as escritas do quadro, mas não provava nada ainda. Precisavam de mais que um pequeno versículo. Arma. Motivo.
Pelo rádio, Logan foi avisado que uma unidade estava na casa de Caranovinco e que deviam seguir para lá. A viagem durou cinco minutos. A residência era grande e também possuía alguns objetos da seita. "Baphomet de novo!", pensou Daniel. Tamara Caranovinco era uma morena linda, de olhos negros, cabelos encaracolados e alta. Ela estava com uma policial na sala conversando e sendo consolada. Logan foi até onde estava a mulher. Dito resolveu ficar olhando a casa. O detetive se detinha em reconhecer os símbolos. No seu Iphone, pesquisava para que servia cada um. Rituais, livros, deuses, demônios. Eram adoradores pagãos, mas também cidadãos. Até que parou perante um móvel que continha em sua superfície um estojo de veludo com um martelo e treze espaços vazios.
- Sra. Caranovinco, o que são estes espaços vazios?
Tamara se aproximou de Daniel. A mulher exalava um perfume forte e áspero às narinas.
- São os treze pregos do Monte Cenis.
- Item de colecionador?
- São símbolo da crucificação de Cartago.
A mulher seria capaz de matar o próprio marido? Não fazia sentido. O tamanho não serviria para muito e não eram do tamanho que se enfiaria nos punhos de um homem. Logan não conseguiu tirar nada. Saíram e foram para a delegacia.
A madrugada passava com as constatações dos dois detetives. Era um crime estranho. Ninguém batia com as provas. Os pregos não eram do tamanho dos espaços vazios do estojo, o martelo estava desaparecido, assim como a cruz e só tinham o quadro do versículo como uma pista longínqua. Era hora de procurar Homer Wellington. A polícia toda estava atrás do homem desde o início da investigação. Ele era o possível suspeito com algum rabo preso. No início da manhã, Logan chega com duas notícias.
- Uma boa e uma ruim, qual vocês quer primeiro?
- A boa!
Logan trouxera a foto do corpo de Homer Wellington em um pavilhão no bairro de Bridge I, degolado em meio aos ratos. O carro do homem havia sido encontrado nas docas de Greencliff. A notícia ruim era que o bispo Evangelino Papolle era ultra-conservador, ou seja, se fosse possível puniria com a morte os anti-cristãos. Ambos seguiram a boa notícia. Foram para o píer 27 do bairro de Ocean Docks na ilha de Greencliff.
A polícia fechou o local no início da manhã. Logan e Dito abriram os depósitos. O local só guardava duas coisas: um saco de pregos de grande comprimento e um livro preto chamado "Os Rituais Antigos" de Arthur Depree. Tudo ainda não fazia sentido. Era hora de analisar o que tinham e poder dormir um pouco. Logan fora para casa e Daniel também. O detetive levou o livro consigo para seu pequeno apartamento e apagou por seis horas. Ao longo do dia, acordou, fez um café e ficou analisando o livro. A obra de Depree trazia inúmeros rituais pagãos que explicava como ganhar poder, admiração e salvação. "Que deplorável!", pensava Daniel a cada linha que lia. Então, Logan ligou.
- Os rapazes encontraram uma pista. Liceu Caranovinco estava com uma doença terminal! A perspectiva para o seu tumor cerebral era de mais três meses. Isso ajuda um pouco?
- Pode vir a calhar com a obra linda que estou lendo.
SALVAÇÃO! Precisava achar um ritual de salvação de corpo, alma ou qualquer coisa do gênero. E encontrou.
Daniel e Logan reuniram Arthur Depree e Tamara Caranovinco, juntamente com o bispo Evangelino Papolle, na delegacia. Dito pegou o livro de Depree e leu em voz alta.
- "A Salvação da Alma para o Éden - O sangue do ladrão com a oferta da carne na morada da cruz consagrada invertida para que o corpo seja levado para o paraíso abençoado. Pelas palavras sagradas da salvação alheia e da libertação, basta o verso para que a voz do anjo clemente traga aos portões divinos o sacrifício feito".
Todos se olharam. O bispo não entendeu, Depree sorriu e Tamara ficou pálida.
"No dia em que a Cruz de São Rafael foi retirada o alto da Catedral de Santo Antônio, Homer Wellington roubou a cruz, deixando a caixa em que o objeto estivera nos fundos da cúria. Liceu tinha lido o tal ritual que dizia: 'oferta da carne na morada da cruz consagrada invertida'. Ele interpretou como sendo a caixa da cruz dentro do solo da Catedral. Com pouco tempo de vida e devido a sua crença, decidiu fazer o ritual do livro de Arthur Depree para que sua alma fosse para o Paraíso, temendo o Inferno. Pagou Homer para roubar o objeto sagrado e depois o matou, retirando o seu sangue, então teria o 'Sangue do ladrão'. Colocado na caixa e pregado, espalhou-se o sangue nos pés da cruz e foi colocado apenas a localização do versículo bíblico em seu corpo, onde se revela 'basta o verso'. Mas quem poderia fazer isso? Tamara Caranovinco era a única que concordaria em salvar o marido do jeito que fosse. Pegou o martelo da sala e comprou pregos maiores, pois os colecionáveis eram pequenos demais. Aos choros, pregou o marido na expectativa que estivesse certa. Onde está a Cruz de São Rafael? Nunca saiu do carro de Wellington que está na doca 27."
Tamara fora algemada e levada. O bispo ouviu tudo e foi embora. Logan encarou Arthur.
- Como pode mentir para essas pessoas?

- A fé é acreditar em algo que não se pode ser provado. Assim como o deus cristão, o meu deus espera o mesmo de mim.